Congresso reúne governo, indústria e especialistas para discutir como transformar potencial renovável em desenvolvimento econômico
A transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar o centro da estratégia econômica do país. Esse foi o tom da abertura do IV Workshop Internacional e II Congresso Brazil Offshore Wind & Power-to-X (BOWPX), realizada nesta segunda-feira, em Natal, reunindo representantes do setor público, iniciativa privada, academia e instituições financeiras.
O principal eixo do debate foi como transformar a liderança brasileira na geração de energias renováveis em uma nova fase de industrialização, com geração de empregos, agregação de valor e desenvolvimento regional. A discussão ganha relevância em um momento em que o país busca ampliar sua competitividade global na economia de baixo carbono.
Ao abrir o evento, o coordenador do congresso e líder do Grupo de Pesquisa Creation da UFRN, professor Mario González, destacou que o Brasil precisa avançar além da produção de energia limpa. Segundo ele, o desafio agora é estruturar uma cadeia produtiva capaz de transformar esse potencial em riqueza.
A avaliação predominante entre os participantes é de que o país reúne condições estratégicas para liderar essa nova economia. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, abundância de recursos naturais e posição geográfica favorável à exportação, o Nordeste desponta como uma das regiões mais competitivas do mundo para produção de hidrogênio verde, combustíveis sintéticos e fertilizantes de baixo carbono.
Nesse cenário, o Rio Grande do Norte foi apontado como protagonista. A governadora Fátima Bezerra ressaltou que o estado já ocupa posição de destaque na geração de energia eólica e que o próximo passo é garantir que os ganhos econômicos permaneçam no território, por meio da industrialização e da atração de novos investimentos.
Entre os projetos estruturantes apresentados, o Porto-Indústria Verde foi destacado como peça-chave para viabilizar empreendimentos ligados à produção de hidrogênio verde, amônia e combustíveis sustentáveis, ampliando a inserção do estado na cadeia global de energia limpa.
Outro ponto central foi a construção do marco regulatório para a energia eólica offshore no Brasil. Representantes do Governo Federal destacaram que o país está estruturando um modelo baseado em planejamento e segurança jurídica para viabilizar os primeiros projetos no mar, com participação integrada de diferentes setores.
A ciência e a inovação também foram apontadas como pilares indispensáveis para o avanço da transição energética. A integração entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo foi destacada como condição essencial para o desenvolvimento de tecnologias e formação de mão de obra qualificada.
No campo do financiamento, o Banco do Nordeste reforçou seu papel como principal agente de crédito para o setor na região. Em 2025, a instituição destinou R$ 10,75 bilhões para projetos de energias renováveis, sendo cerca de R$ 1,45 bilhão aplicados no Rio Grande do Norte, evidenciando o volume de investimentos necessários para sustentar essa nova etapa de crescimento.
O evento também evidenciou uma mudança de posicionamento do Nordeste no cenário energético nacional. Se antes a região buscava se consolidar como produtora de energia, agora o desafio passa a ser utilizar esse ativo como alavanca para atrair novas cadeias industriais e ampliar a participação na economia global.
A indústria local, por meio da FIERN, destacou iniciativas voltadas à qualificação profissional e à atração de empreendimentos intensivos em consumo energético, enquanto o Sebrae-RN defendeu a inserção dos pequenos negócios nas cadeias produtivas ligadas às energias renováveis, ampliando o impacto econômico da transição.
Ao longo de três dias, o Brazil Offshore Wind & Power-to-X reúne participantes de diversos países para discutir temas como regulação, financiamento, infraestrutura, inovação tecnológica e hidrogênio verde.
Mais do que um encontro técnico, o evento consolida Natal como um dos polos de debate sobre o futuro energético do país e reforça uma questão central para o Brasil: como transformar a abundância de recursos renováveis em desenvolvimento econômico sustentável, com geração de emprego e renda no longo prazo.