NR-1 entra em vigor e exige atenção imediata das empresas à gestão de riscos psicossociais

 

Nova fase da norma reforça necessidade de evidências reais, participação dos trabalhadores e revisão de práticas de gestão de pessoas

A partir desta terça-feira (26), entra em vigor uma nova etapa da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que passa a exigir das empresas brasileiras a inclusão dos fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Na prática, a mudança amplia o nível de responsabilidade das organizações e reforça a necessidade de comprovar, com evidências reais, a adoção de medidas voltadas à saúde mental e organização do trabalho.

Segundo especialistas, o principal risco neste momento é tratar a atualização como uma obrigação apenas burocrática. Para a psicóloga Andréa Fidelis, diretora da Capital Care Assessoria Organizacional, coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN) e docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP), a adequação exige mudança de cultura dentro das empresas.

“A empresa precisa demonstrar que olhou para a forma como o trabalho está organizado. Não basta ter um documento pronto se a rotina continua produzindo sobrecarga, medo, conflito ou adoecimento”, afirma.

Com a nova fase da norma, a fiscalização tende a ir além da análise documental. Auditores devem observar a coerência entre o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e a realidade do ambiente de trabalho, incluindo entrevistas com colaboradores, observação direta, registros de participação e ações efetivamente implementadas. Um guia recente do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reforça que a adequação depende de critérios técnicos, participação dos trabalhadores e evidências de aplicação prática.

Cinco erros que as empresas devem evitar com a NR-1

Entre os principais pontos de atenção para o setor empresarial estão práticas que podem comprometer a conformidade com a norma e a efetividade da gestão de riscos psicossociais.

Um dos erros mais comuns é a elaboração de um “documento de gaveta”, quando o PGR existe apenas formalmente, sem refletir a realidade do ambiente de trabalho. Nesse cenário, a fiscalização deve considerar não apenas documentos, mas evidências como entrevistas, registros e medidas concretas adotadas.

Outro equívoco é ignorar a participação dos trabalhadores na construção do inventário de riscos. Sem essa escuta, fatores como sobrecarga, conflitos, assédio e falhas de comunicação podem não ser identificados corretamente, comprometendo o diagnóstico.

Também é considerado insuficiente aplicar pesquisas internas sem transformar os resultados em ações práticas. A norma exige um ciclo completo de gestão: identificar, avaliar, priorizar, agir e monitorar os riscos.

A separação entre NR-1 e canais de denúncia é outro ponto crítico. A gestão de riscos psicossociais deve estar integrada a mecanismos seguros de escuta e denúncia, especialmente diante de situações de assédio e violência no ambiente de trabalho.

Por fim, especialistas alertam para o risco de tratar a liderança como figura apenas operacional ou espectadora. Gestores têm papel central na prevenção, já que práticas de cobrança, organização de equipes e condução de conflitos impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores.

Para Andréa Fidelis, a mudança representa um novo modelo de gestão. “A empresa precisa sair da lógica do documento pronto e entrar na lógica da responsabilidade contínua. Risco psicossocial não se resolve com uma ação isolada. Ele precisa ser identificado na forma como o trabalho acontece todos os dias”, destaca.

Com a entrada em vigor da NR-1, empresas de diferentes portes passam a ter o desafio de integrar saúde mental, gestão de pessoas e segurança do trabalho em uma mesma estratégia, sob risco de autuações e impactos reputacionais.

foto: Cedida/assessoria

  Revista Negócios
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